O erro silencioso de quem entende tudo e aceita mais do que deveria.
Descubra o erro silencioso de quem entende todo mundo e aceita demais. Aprenda a diferenciar empatia, aceitação e concordância nos relacionamentos.
RELACIONAMENTOS E VIDA FEMININAAUTOCONHECIMENTO E EMOÇÕES
Rosângela Tamai


Você pode compreender as razões de alguém sem concordar com suas atitudes. Descubra como essa diferença pode transformar suas escolhas e seus relacionamentos.
Quantas vezes você disse “tudo bem” quando, na verdade, não estava nada bem?
Talvez tenha sido quando alguém desmarcou um compromisso pela terceira vez. Quando um familiar ultrapassou um limite. Ou quando você abriu mão dos próprios planos porque outra pessoa precisava de alguma coisa.
Você compreendeu. Afinal, havia uma explicação.
E, justamente por compreender, acabou cedendo.
Mais uma vez.
O problema não está em ser compreensiva. Essa é uma qualidade valiosa.
O erro silencioso começa quando você acredita que entender os motivos de alguém significa ter de aceitar suas atitudes.
E muitas vezes essa confusão acontece tão naturalmente que nem percebemos o quanto ela influencia nossas escolhas.
Entender, aceitar e concordar: três atitudes, três escolhas.
Essas palavras aparecem juntas nas nossas conversas, mas não significam a mesma coisa.
Entender é procurar compreender o que aconteceu, quais circunstâncias estão envolvidas e o que pode ter motivado determinada atitude.
Aceitar pode significar reconhecer uma realidade como ela é, sem negar aquilo que aconteceu. Mas reconhecer a realidade não significa aprová-la ou permitir que continue se repetindo.
Concordar é considerar uma opinião, atitude ou decisão adequada, ou compartilhar o mesmo ponto de vista.
Percebe a diferença?
Você pode entender por que alguém mentiu sem concordar com a mentira.
Pode aceitar que uma pessoa tem determinada personalidade sem aceitar que ela a trate com desrespeito.
Pode compreender a insegurança de um familiar sem concordar com todas as exigências que ele faz.
E pode, inclusive, concordar com uma decisão sem compreender completamente todas as razões envolvidas.
Entender, aceitar e concordar não precisam acontecer juntos.
Essa distinção parece pequena, mas pode modificar profundamente a maneira como nos posicionamos nas relações.
Quando o seu “tudo bem” começa a custar caro.
Imagine uma mulher que tem o hábito de organizar seus compromissos em função das necessidades da família.
Ela gosta de cuidar das pessoas. É atenciosa, responsável e costuma encontrar soluções.
Até aí, tudo bem.
O problema começa quando todos passam a considerar sua disponibilidade como algo garantido.
Se alguém precisa de ajuda, ela reorganiza a agenda.
Se um compromisso é cancelado, ela compreende.
Se alguém faz uma exigência inesperada, ela encontra uma maneira de atender.
E quando sente cansaço ou frustração, pensa:
“Mas eu sei que essa pessoa está passando por um momento difícil.”
Aos poucos, a compreensão deixa de ser uma escolha e começa a parecer uma obrigação.
Ela continua dizendo “tudo bem”, embora alguma coisa dentro dela esteja pedindo atenção.
Não porque deixou de amar aquelas pessoas, mas porque também possui necessidades que merecem consideração.
O que parecia generosidade pode estar se tornando uma renúncia automática.
E perceber isso não significa deixar de cuidar. Significa começar a incluir a si mesma no cuidado.
Empatia não é uma autorização para ultrapassarem seus limites.
Ser empática é tentar compreender a experiência de outra pessoa.
É reconhecer que cada ser humano tem sua história, seus sentimentos, suas dificuldades e sua maneira de interpretar o mundo.
Mas existe uma diferença entre compreender o sofrimento de alguém e assumir a obrigação de resolver esse sofrimento.
Uma mãe pode entender a frustração de um filho adulto sem concordar com suas escolhas.
Uma amiga pode acolher um desabafo sem precisar tomar partido.
Uma mulher pode compreender a dificuldade emocional do companheiro e, ainda assim, considerar determinadas atitudes inaceitáveis dentro da relação.
A empatia continua presente, mesmo quando há discordância.
Na verdade, algumas relações amadurecem quando aprendemos a conviver com perspectivas diferentes.
É possível dizer:
“Eu compreendo o que você está sentindo, mas não concordo com a maneira como você está me tratando.”
Essa frase não precisa ser uma declaração de guerra.
Pode ser simplesmente uma expressão de honestidade.
Aceitar a realidade não é se conformar com ela.
Aqui existe outra confusão importante.
Muitas pessoas associam aceitação à ideia de suportar qualquer coisa sem reclamar.
Mas aceitar também pode significar reconhecer que uma situação existe, independentemente de gostarmos dela.
Imagine descobrir que alguém não consegue oferecer o tipo de relacionamento que você deseja.
Você pode reconhecer essa realidade sem tentar transformar a pessoa em alguém diferente.
Mas isso não significa que precise permanecer naquela relação.
Ou imagine perceber que um familiar tem opiniões muito diferentes das suas.
Você pode aceitar a existência dessa diferença sem concordar com aquelas opiniões e sem participar de conversas desrespeitosas.
A aceitação, nesse sentido, não elimina sua liberdade de escolha.
Pelo contrário.
Quando deixamos de negar aquilo que está acontecendo, podemos começar a decidir o que fazer com essa realidade.
Isso inclui conversar, negociar, estabelecer limites, buscar apoio, mudar a maneira de participar da relação ou, quando necessário, afastar-se.
Em situações de abuso, violência ou coerção, a segurança e a proteção devem vir antes de qualquer tentativa de diálogo ou negociação.
O perigo de transformar compreensão em autoabandono.
Nem toda concessão representa autoabandono.
Ceder ocasionalmente faz parte da convivência. Existem momentos em que escolhemos abrir mão de uma preferência para cuidar de alguém ou preservar um compromisso importante.
O problema aparece quando isso deixa de ser uma escolha e passa a ser um padrão.
Você começa a acreditar que sempre precisa compreender.
Que não pode decepcionar.
Que discordar é sinal de egoísmo.
Que colocar um limite significa deixar de amar.
E, sem perceber, passa a avaliar as necessidades das outras pessoas com muito mais atenção do que as próprias.
Talvez seja hora de perguntar:
Estou escolhendo ser compreensiva ou estou tentando evitar o desconforto de dizer não?
Essa pergunta não pretende produzir culpa.
Ela oferece uma oportunidade de observar o que realmente orienta suas decisões.
Pequenas mudanças que podem transformar suas relações.
Não é necessário mudar completamente sua personalidade para começar a construir relações mais equilibradas.
Você pode continuar sendo sensível, generosa e acolhedora.
A diferença está em reconhecer que também possui opiniões, sentimentos e limites legítimos.
Experimente três atitudes:
1. Substitua o “tudo bem” automático por uma resposta consciente
Antes de concordar com um pedido, pergunte a si mesma se realmente deseja ou pode atendê-lo.
Quando necessário, diga:
“Preciso verificar meus compromissos antes de responder.”
Uma pequena pausa pode impedir que você assuma uma obrigação sem considerar suas necessidades.
2. Reconheça os sentimentos sem justificar todos os comportamentos
Você pode dizer:
“Eu entendo que essa situação tenha sido difícil para você.”
E acrescentar, quando apropriado:
“Mas precisamos encontrar outra maneira de lidar com isso.”
A primeira frase reconhece a experiência emocional. A segunda estabelece uma necessidade de mudança.
3. Aprenda a discordar sem precisar convencer
Nem toda diferença exige um vencedor.
Às vezes, basta reconhecer:
“Nós pensamos de maneiras diferentes sobre esse assunto.”
Isso não resolve automaticamente todos os conflitos, mas pode diminuir a necessidade de transformar cada conversa em uma disputa.
Três perguntas que merecem acompanhar você.
Na próxima situação em que sentir que precisa ceder para preservar a paz, experimente refletir:
O que eu compreendo?
Consigo reconhecer os sentimentos, os motivos e as circunstâncias envolvidos?
O que eu aceito como realidade?
Estou reconhecendo o que aconteceu ou tentando negar uma situação que precisa ser enfrentada?
Com o que eu realmente concordo?
Minha resposta representa meus valores e minha vontade ou nasce apenas do receio de desagradar?
Essas perguntas não oferecem uma fórmula para todos os relacionamentos.
Elas ajudam a criar um pequeno espaço entre aquilo que acontece e a maneira como escolhemos responder.
A liberdade de compreender sem concordar
Com a maturidade, podemos descobrir que não precisamos escolher entre ser gentis e ser firmes.
Podemos acolher sem assumir todas as responsabilidades.
Podemos compreender sem justificar.
Podemos aceitar que uma pessoa seja diferente de nós sem concordar com todas as suas atitudes.
E podemos amar sem transformar o amor em uma obrigação permanente de renunciar a nós mesmas.
Relacionamentos saudáveis não dependem de concordância absoluta.
Dependem de respeito, responsabilidade, comunicação e espaço para que as pessoas possam existir com suas diferenças.
Talvez o maior aprendizado não seja compreender mais os outros.
Talvez seja perceber que você também merece a compreensão que oferece com tanta facilidade.
E que suas escolhas podem mudar quando entende que dizer “eu compreendo” não a obriga a dizer “eu concordo”.
Vamos conversar?
Você já disse “tudo bem” apenas para evitar um desconforto, mesmo sabendo que não concordava com a situação?
Se sentir vontade, compartilhe sua experiência nos comentários. Sua reflexão pode ajudar outras mulheres a reconhecerem pequenos hábitos que também estão presentes em suas vidas.
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Rosângela Tamai
Ordem Interna Feminina | Espiritualidade aplicada à vida real.
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